É sempre delicado associar a performance art com fetichismo. Muito embora a relação salte aos olhos, não só pro público leigo, mas até pra galera das próprias artes do corpo (da qual, inclusive, tenho lugar de fala pra afirmar😜). Não que alguém vá admitir numa vernissage, muito menos nas justificativas de um edital, mas entre quatro paredes, depois de uma ou duas garrafas de vinho, muita coisa pode vir a tona, nem que seja só para negar depois, com medo do cancelamento pelos seus próprios pares. Que época mais reacionária essa, em que nem mesmo artistas e progressistas conseguem mais perceber o quão adoecedor é equivaler as palavras "sexualização" e "abuso" de forma tão automática e absoluta. No site oficial do Grupo EmpreZa, onde se pode encontrar os vídeos completos e maiores informações sobre a performance SeHão, fala-se muito em "interferência na paisagem", em "alegoria dos vínculos" e no "peso do sujeito com a alteridade", mas o que não consigo (e nem quero) deixar de ver é o quanto a técnica utilizada para unir as duplas de performers com ataduras cirúrgicas nos remete diretamente ao cast fetish. Não é intencional e eu estou "sexualizando"? Pode ser, mas seguirei resistindo a tomar essa palavra como negativa a priori. Há um erotismo inerente à essa fusão voluntária de corpos que se oferecem a ver no espaço urbano, impondo sua presença num mundo que se recusa, pateticamente, a quebrar a rotina por conta dela. Uma visão intrusiva, simultaneamente excitante e inocente, que evoca um nível de intimidade (física e carnal) que é quase sobre humano, especialmente numa sociedade tão intoxicada pelo individualismo. Esperar que não haja uma apropriação de natureza igualmente visceral e física, ou, mais ainda, condena-la por princípio, me parece quase uma arapuca semiótica. Assim, nos apropriemos, então, sem culpa, destacando em especial a união das performers, pois o olhar tem suas prerrogativas, e não pode evitar de se deixar roubar por aquilo que mais lhe toma de assalto.😉






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